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Conto da África oriental
Um marido não queria mais viver com a mulher e resolveu se divorciar. Mas o casal tinha um filho recém-nascido, e tanto o pai quanto a mãe queriam ficar com o bebê. Foram consultar o juiz e a mulher argumentou: - Carreguei a criança no ventre nove meses. Amamentei-o em meu seio, cantei para ele dormir no meu colo embalei-o todas as noites. Consolei-o quando chorava, cuidei dele quando adoecia. Estou com ele dia e noite e o amo mais que a vida. Deixe-me ficar com ele. Então foi a vez do homem: - Dei a semente que fez a criança. Portanto, o filho é meu e devo ficar com ele. O juiz olhou para o homem e falou: - Então você deu a semente? - Isso mesmo! - respondeu ele com orgulho. - Só precisou de uma semente. - Entendo - disse o juiz. - Então o pai dá a semente, a mãe carrega e alimenta a criança. Sendo assim, acho que posso dar uma decisão ao caso. Mas primeiro precisamos pesar umas coisas. Mandou trazer uma balança e pesou a criança. - O menino pesa quatro quilos e meio - disse o juiz ao pai. - Se contribuiu com apenas uma semente, pode-se concluir que a mãe deu quatro quilos e meio menos o peso de uma semente. Se quer ficar com a criança, tem que pagar a sua mulher o valor de quatro quilos e meio de comida. O homem olhou para o juiz como se estivesse na presença de um louco varrido. - Espere, não acabei - continuou o juiz. - Vamos consultar um carregador de bagagem. Mandou chamar um carregador e perguntou: - Quanto cobra para levar uma carga? - Uma moeda por dia por cada quilo de peso - respondeu ele. - Muito bem - disse o juiz. - Vamos calcular que essa mulher tenha carregado meio quilo no primeiro mês de gravidez, terminando com quatro quilos e meio no nono mês. Portanto, calculando uma moeda por quilo a cada dia durante nove meses, ela tem direito a mil e quatrocentas moedas. O marido deve pagar a ela mil e quatrocentas moedas por levar a carga para ele. O homem esbugalhou os olhos. - Mais uma coisa - disse ainda o juiz. - Se custou tudo isso para trazer a criança ao mundo, pense quanto vai custar para criá-la. O homem ficou em silêncio, começando a entender. - Agora entendo, senhor juiz - disse por fim. - Preciso é dividir a carga com minha mulher para equilibrar a balança. Do livro: O Livro das Virtudes II - O compasso moral
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